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Touro indomável

Márlio Raposo Dantas, o arquiteto pernambucano que mudou a paisagem urbana santista.

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Por Jefferson Alves Cruz .

“Sempre fui exigente comigo e com os profissionais que trabalharam comigo. Recebi uma educação rígida e tentei transmitir esses princípios para o trabalho e o ambiente familiar. A disciplina tinha que imperar. A minha exigência era tanta que demiti minha própria filha. Ela estava com dezesseis anos e não seguiu os princípios que a ensinei. Nunca fiquei constrangido com isso e o engraçado é que ela não teve nenhuma reação, mas depois ficou com raiva de mim. Foi um ódio anti-Cristo”. (Márlio Raposo Dantas)

Longe da cidade grande e no alto da Serra do Mar, este é o local escolhido por Márlio Raposo Dantas, 82 anos, para viver. Localizada a 291 km de Santos – cidade onde viveu por mais de 40 anos -, o município de Cunha é conhecido como a terra da cerâmica noborigama e possui cerca de 22 mil habitantes, segundo o Censo de 2015 divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).  

É nessa pacata cidade, especificamente no Bairro Vila Rica que uma casa de vidro com quatro pavimentos, nas cores vermelha e branca, chama a atenção dos moradores e turistas que chegam à cidade. Para alguns, a residência é do ator Maurício Matar e para outros, o local é o “predinho”, também conhecido como a sede do Banco Bradesco. Mero engano!

Projetada e construída em 1985 pelo próprio arquiteto, a residência está envolta a um imenso jardim com frutas exóticas – pitayas, longanas, lichias -, orquídeas  e pés de ipê rosa, cujas flores cobrem o chão da entrada principal. Neste lugar paradisíaco, vivem o arquiteto, a esposa Maria das Graças Neves Raposo, 78 anos, e o fiel escudeiro Mac, um cachorro da raça boxer com aproximadamente sete anos.

Sábado, dia 26/08/2017

São quase 16 horas de uma tarde típica do inverno e apesar do dia ensolarado, a temperatura começa a cair. Vaidoso, Márlio se prepara para a entrevista. Usa um chapéu de feltro de lã cinza claro, calça social, blusa de frio cinza e sob o casaco uma camiseta básica na cor azul claro. Mexe no chapéu e se ajeita na sala de estar. Neste momento, a esposa, traz um copo de Coca-Cola com pedras de gelo, o refrigerante preferido do marido. Sentado na poltrona amarela e em frente à lareira, pega com a mão direita o copo, toma um gole, cruza as pernas e afirma que a esposa sempre tem uma resposta na ponta da língua. Agradecido e sorridente, recebe um beijo da companheira, que ao esbarrar no chapéu, ouve do marido: “Eita, Graça desarrumou toda a maquiagem”.

Sorridente e gesticulando muito a mão esquerda ao falar, lembra-se da adolescência em Pernambuco e das oportunidades que surgiram na vida após conhecer o ainda estudante e futuro arquiteto Vital Maria Pessoa de Melo, responsável por apresentá-lo ao arquiteto Acácio Gil Borsoi. “Posso dizer que a inspiração para estudar arquitetura surgiu deste convite. Meu amigo Vital era muito inteligente e ao ver os meus cadernos de desenhos geométricos notou que eu possuía um traço a lápis muito bonito e por isso me convidou para fazer um estágio no escritório, na Rua da Aurora, no centro de Recife. Ao conhecer à Arquitetura, comecei a mudar a minha linha de comportamento em relação a escolha da minha profissão. Antes, pensava em ser engenheiro civil devido à forte influência do ensino de matemática e ciências exatas, mas ao ver todos os projetos e estudos criados pelo Borsoi, percebi que a minha verdadeira vocação seria à Arquitetura”.

Filho do chofer de praça Júlio Dantas e da dona de casa Maria das Dores Raposo  – conhecida como Dorinha-, Márlio nasceu em 19 de março de 1936, na cidade de Olinda, em Pernambuco. Com as irmãs Marli e Marluce,  vive com o pai biológico até os dez anos. Após o término do primeiro casamento, encontra referência paterna com o segundo marido de sua mãe, o oficial da Marinha Amaro Francisco Tavares, onde adquire como conhecimento o aprendizado militar e novos ensinamentos não proporcionados pelo pai biológico.  “O papai Amaro, apesar de viajar muito, foi capaz de me disciplinar. Era muito inteligente e possuía muito conhecimento. Ao chegar em casa, nos ensinava as disciplinas aprendidas na Marinha, mas quando precisava, era muito rígido e me castigava. Diferente do outro casamento, passamos a ser educados com uma classe de pessoas que havia cultura e isso foi interessante”, lembra Márlio.

Em 1956, o pisciano inicia os estudos na Escola Pernambucana de Belas Artes, tendo que trancar o curso durante um ano devido ao casamento, retornando ao ensino acadêmico no ano seguinte na Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA), atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Essa transferência foi boa porque o mercado de trabalho no Rio de Janeiro era amplo e assim que cheguei na cidade fui trabalhar no escritório do arquiteto Arthur Coelho, que era um decorador muito sério e renomado. Fiquei lá por indicação do arquiteto Acácio Gil Borsoi e a partir daí, ao conhecer novas pessoas, estabeleci contato com inúmeros profissionais cariocas e ainda fui contemporâneo de Arthur Lício Pontual e Luiz Paulo Conde”.

O sino da Igreja Matriz da cidade de Cunha toca anunciando a morte de mais um munícipe. Brincalhão e ao mesmo tempo irônico, Márlio diz: “a igreja repete a informação duas ou três vezes, dependendo do que eles pagarem”. Rindo, toma mais um “gole” de Coca-Cola e após três minutos retornamos a conversa. Ao falar do que aprendeu no Rio de Janeiro, lembra saudosamente do período em que trabalhou com o arquiteto Arthur Coelho. “Apesar de ter um temperamento muito forte, rígido, me transmitiu muitos ensinamentos, entre eles a arte do projetar, decorar e de como detalhar a verdadeira atividade do decorador. Ao estagiar no escritório como arquiteto, comecei a conhecer que os decoradores passaram a ser simples arrumadores de móveis, mas o Arthur Coelho, não. Ele fazia o anteprojeto, com todas as normas que o IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil - fixava. Depois de um tempo comecei a cansar daquela linha rígida de trabalho e queria ampliar a minha atividade e os meus conhecimentos em outra área que não fosse só decoração”.

Depois do know-how adquirido, Márlio lembra do último trabalho realizado no Rio de Janeiro. “Trabalhar no escritório do paisagista Roberto Burle Marx veio ao encontro de uma atividade e um conhecimento sobre botânica que adquiri no Ginásio Pernambucano. Quando jovem, eu tinha muita facilidade na cadeira de Ciências Humanas em distinguir as preliminares da classificação das plantas aquáticas, aéreas, subterrâneas e aquilo ali mostrou o meu interesse por Biologia e Botânica. Quando fui convidado para trabalhar no escritório do Roberto Burle Marx, para mim foi uma dádiva. Lá, passei de desenhista horista para chefe de sessão, usando os meus conhecimentos de desenho técnico que aprendi. Considero Burle Marx um ícone da minha vida profissional. Ele não era um patrão, era um amigo”.

Entre os projetos desenvolvidos por Burle Marx em que Marlio participou, estão os do Aterro do Flamengo e dos Parques Del Oeste e Del Leste, na Venezuela. “O projeto paisagístico dele era encarado como se fosse de edificação, com todas as fases – estudo preliminar, anteprojeto, projeto-executivo -, com o detalhe e lista de todas as plantas”.

Com a vida nada fácil, Márlio precisava conciliar o trabalho, a vida acadêmica e conjugal.. Casados há quase sessenta anos, a esposa lembra das dificuldades encontradas pelo casal nos primeiros anos da vida matrimonial.  “No Rio, ele se propôs a trabalhar ao máximo que pôde e a conhecer pessoas para que ele tivesse informações boas. Era tudo muito distante e muitas vezes nem voltava para almoçar em casa. Passamos muito tempo separados em termos de dia a dia, devido a essas dificuldades de localização e de tempo. Muitas vezes quando havia muito trabalho, ele dormia até no escritório”, lembra Maria das Graças.

A filha Cristina Dantas, psicóloga, 59 anos, (branca, cabelos lisos – corte estilo chanel), lembra da infância vivida antes da ascensão da vida profissional do pai. “Os momentos eram complicados e a ausência de papai era constante. Ele estava sempre fora de casa e durante boa parte de nossa vida foi assim em função do lado profissional. Mas um momento bom que vivíamos era quando papai pegava o violão e tocava para a gente. Ele nos colocava para cantar e ouvir. Isso fazia ressonância em mim. Eram músicas do Altemar Dutra,  Adoniran Barbosa, da Dalva de Oliveira e Ave Maria, de Gounod”.

Em 1962, ao terminar a graduação de arquitetura, Márlio se transfere para Santos a convite do padrasto. “Meus pais foram transferidos para Santos devido à atividade profissional do meu pai, então todos os anos, eu levava meus filhos Cristina e Sérgio no período natalino para visitá-los. Ao ver a efervescência do mercado imobiliário percebi que encontraria um excelente mercado de trabalho. Naquele momento, a cidade de Santos possuía poucos arquitetos e um grande potencial para trabalhar. O mercado imobiliário estava em ascensão e resolvi ir em busca de novos objetivos. Nesta época, no Rio de Janeiro a demanda de projetos não era tão fácil e tão grande porque existiam muitos arquitetos e não havia oportunidade para todos os arquitetos. Para sobreviver era difícil”.

São quase 20 horas e a filha caçula Flávia Dantas, 48 anos, chega do Guarujá, litoral paulista, após quase cinco horas de viagem, acompanhada de dois cães da raça yorkshire. Estatura baixa e com cabelos curtos cacheados, usa calça jeans e camisa verde. Primeiro, beija a mãe e depois o pai, chamando-o de “Touro Indomável”. O cão Mac e os dois yorkshire correm de um lado para o outro de forma pacífica por todo segundo andar da residência. Um apito de madeira toca – em função da distância entre a cozinha e o quarto A, onde o casal descansa - e Maria das Graças diz: “Meu bem, vamos comer!”.

Lentamente, Márlio caminha em direção a cozinha e senta-se na ponta da mesa. Ao lado direito, a esposa e ao esquerdo, a filha Flávia. O arquiteto aposentado liga a televisão e assiste ao Jornal da Bandeirantes, come pão australiano fresquinho, comprado na padaria do Mamed, localizada no centro da cidade, toma Coca-Cola e logo em seguida uma taça de sorvete de chocolate da Nestlé. “Esse sorvete é o melhor”.

Na mesa, pergunto a arquiteta Flávia Dantas, única filha a seguir a carreira profissional do pai, se a escolha da profissão teve alguma influência do arquiteto. “Sim. Desde criança o meu pai trabalhava de domingo a domingo e eu gostava de acompanhá-la no escritório também. Era uma maneira de ficar com o meu pai e comecei a gostar. Eu olhava as revistas de arquitetura dele e o ambiente de arquitetura, com desenhos grandes, lápis, tintas e me instigava muito. Naturalmente fui crescendo e notei que tinha vocação também”.

Espirituosa e brincalhona como o pai, lembra que aos dezesseis anos, antes de prestar o vestibular para o curso de arquitetura estagiou na DRM, com o pai, para aprender desenho de observação para a prova de Linguagem Arquitetônica e assim que foi aprovada começou a trabalhar como os demais profissionais da empresa até acabar a faculdade. “Papai sempre foi muito exigente e era difícil de ganhar um elogio dele. Eu passei toda a vida sem receber um elogio [ri em voz alta]. Na época de meu trabalho de graduação só falou sobre meu projeto porque eu perguntei a ele se havia gostado. Ele não disse se o projeto era bom, só falou que estava bem desenhado [ri em voz alta e mexe o cabelo]”.

Ao ser questionada sobre a saída da DRM Construções Ltda., Flávia diz ter sido demitida pelo próprio pai. “Saí de lá brigada. A gente brigava um pouco. Naquela semana eu tinha trabalhos da faculdade para entregar e precisei faltar um dia, então ele telefonou e não me encontrou. Papai ficou muito bravo e me demitiu. Essa foi a primeira vez. Depois de formada fui demitida outra vez [ri em voz alta], mas nesse período eu estava prestes a me mudar para Criciúma, em Santa Catarina.

Ao falar sobre o profissionalismo do pai, lembra do legado e da importância que o arquiteto tem para a valorização da profissão de arquiteto na Baixada Santista. “Enquanto, papai foi atuante, sempre fez questão de mostrar para os clientes como era o trabalho do arquiteto, o que deveria ser feito e como deveria ser remunerado. Ele sempre frisou que era preciso valorizar a profissão. As pessoas ficavam pedindo ideias para o arquiteto e achavam que devíamos  dar e não cobrar. As pessoas sempre dizem que o fato dele ter atuado na cidade foi construtivo para a categoria. As pessoas passaram a procurar os arquitetos para criarem seus projetos e construírem suas casas, isso foi importante”, diz a arquiteta.

São quase 21 horas, e o “touro indomável” – apelido dado por Flávia em alusão ao filme de mesmo nome - se despede para descansar. Segue em direção ao quarto A, localizado no terceiro piso da residência.

Domingo, 27/08/2017

São 15h30. Do segundo pavimento, Márlio, olha atentamente para o centro da cidade, localizado a menos de quatrocentos metros da residência. Vestido com camisa xadrez vermelha, calça social preta e chapéu de feltro de lã cinza, por alguns instantes observa o movimento da cidade e a vista privilegiada que o local lhe proporciona. “Não é falando não, mas, a vista daqui é muito linda”, diz. Após alguns minutos de contemplação volta à sala de estar e pede para a filha Flávia auxiliá-lo a pendurar na parede verde o relógio de pêndulo de madeira, da marca alemã Balmont. “Este relógio estava sendo consertado em Santos e foi de meu pai. Eu o comprei! Meu pai era de uma época em que se eu quisesse algo, eu tinha que pagar e, sorridente, olha para a filha”.

Ao lembrar da vida profissional em Santos, recorda do primeiro emprego na cidade. “Comecei a trabalhar na Arena Construções Ltda., no departamento técnico e paisagístico. Mais tarde fui promovido para o cargo de Execuções de Obras e Projetos. Nesta função, fui o responsável por especificar os materiais de acabamento junto aos condôminos e a fiscalizar a execução das obras”.

Insatisfeito com as funções exercidas como profissional, começa a fazer paisagismo e fiscalização de obras. “A mentalidade dos empregados da Arena não era aquela dos profissionais da escola carioca de arquitetura. Depois de ficar vários anos na empresa e estar insatisfeito pelo fato de eu não poder desenvolver os meus projetos como desejava, fui convidado pelo presidente da Associação dos Médicos de Santos, que me conhecia da Arena, para elaborar um projeto da área de lazer dos associados. A partir daí surgiram vários clientes para projetar”.

Ao perceber a demanda, decide abrir o escritório de arquitetura em 1968 e em 1980, inaugura a DRM Construções Ltda. A fim de diferenciar dos demais profissionais que atuavam no mesmo período, começa a fazer o uso da técnica do concreto aparente nos projetos arquitetônicos. “Sempre achei bonita esta técnica e comecei a empregá-la nos meus projetos a partir do momento que montei o meu escritório. A técnica do concreto aparente foi um grande diferencial que permitiu que eu pudesse distinguir o meu trabalho na região. Assim, consegui evidenciar o surgimento de uma linguagem própria embasada em conceitos modernistas, cujo precursor foi o arquiteto suíço Le Corbusier”.

Em mais de quarenta anos da jornada profissional, Marlio projetou e construiu mais de 350 mil metros quadrados, totalizando mais de duzentos projetos comerciais e residenciais. Os edifícios

Pasteur, Lex Urbis e o Nilo Branco se destacam na paisagem arquitetônica

santista e são considerados referências para os visitantes e moradores da cidade.“O Pasteur foi o primeiro empreendimento construído. Neste sonho tive a oportunidade de empregar tudo o que eu

havia aprendido, além de empregar a minha criatividade. O Lex Urbis foi projetado para a cidade e a encomenda era a de se construir um prédio só de escritórios advocatícios. O

projeto foi elaborado parcialmente de concreto aparente e a fachada era composta de brise soleil para proteger os ambientes da insolação. Neste empreendimento foi instalado o primeiro elevador panorâmico da região”, recorda, segundo Márlio.

O projeto arquitetônico mais polêmico foi o edifício Nilo Branco. “Nele consegui sair do concreto aparente. A fachada foi pintada de amarelo e isso chocou a área da Bolsa do Café. Devido a este projeto fui muito criticado, penalizado pela prefeitura santista devido ao atraso na entrega do habite-se e o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), pois diziam que a cor do edifício estava quebrando a ambiência de um bem tombado. No entanto, este projeto tornou-se referência aos munícipes e visitantes da cidade, além de dar vida a toda aquela área que antigamente estava esquecida”.

Diante da situação difícil e do imbróglio judicial, a esposa, Maria das Graças ficou preocupada com a repercussão e as notícias divulgadas pela imprensa.  “Eu fiquei muito triste porque ele sempre fez tudo com muito amor, muito coração, proporcionando a cidade um progresso para que aquele centro ficasse mais alegre. De todas as obras que construiu foi a que houve mais controvérsia dos santistas. Eles não entenderam a proposta e a obra foi embargada. Meu marido sofreu muito e nós participamos, inclusive de um abaixo-assinado que foi feito e muitas amigas assinaram porque conheciam o trabalho dele. Depois de muita preocupação e luta, saiu o habite-se. Depois disso houve o reconhecimento do trabalho dele”. Após o depoimento, Maria das Graças, vai até a sala e me traz alguns jornais sobre o marido. São dois exemplares, sendo um do Jornal A Tribuna (1989) e outro de O Engenheiro (1994), ambos publicados em Santos. As reportagens divulgadas na época foram sobre a liberação do embargo do edifício Nilo Branco e a escolha do arquiteto como profissional do ano. Em 1994, Márlio é reconhecido pela AEAS (Associação dos Engenheiros e Arquitetos da Baixada Santista) como o melhor arquiteto de Santos e região e a ele é outorgado o prêmio pela atuação à comunidade, à

Engenharia e Arquitetura, e à tecnologia nacional. Em entrevista concedida ao jornal

O Engenheiro, de dezembro de 1994, o arquiteto diz sobre ser o profissional do ano e adotar definitivamente a cidade de Santos: “O bom profissional se impõe naquilo que ele faz bem e com amor. A minha produção profissional de arquitetura era muito

grande, e monopolizei o mercado de trabalho por um bom tempo. Um colega chegou a me chamar de “Latifundiário de Projetos”. Não gostei. Ele não explicitou: qualidade ou quantidade? Em 1977, com todos os preconceitos alinhados na Universidade e a minha cabeça feita, capitulei. Assumi de vez a postura de construtor. Foi em Santos que ganhei meus outros dois filhos da gema – Regina e Flávia”.

A importância do arquiteto para a arquitetura santista e brasileira é consenso entre os profissionais que atuam na área e diversos estudos foram realizados por docentes universitários sobre o profissional. Em 2009, os arquitetos e professores universitários Luiz Antônio de Paula Nunes e Nelson Gonçalves de Lima Júnior escreveram um artigo intitulado de “Marlio Raposo Dantas. Um pernambucano na paisagem santista” sobre o legado do arquiteto. “Márlio Raposo Dantas conseguiu fazer história e se destacou por ser o primeiro arquiteto com formação profissional em Arquitetura. Temos muitos engenheiros-arquitetos, em função do tipo de formação no estado de São Paulo. Márlio vem de uma tradição carioca, em que você tem a formação integralmente do arquiteto. Esse tipo de profissional não tínhamos em Santos. Ao vir no começo dos anos 1960, fez diferença a atuação dele. Com todo rigor técnico, que é característico dele, possui uma qualidade profissional com características não só técnica, mas estético também. Ele marcou a paisagem de vários edifícios que são da autoria dele e marcam essa paisagem inequivocamente, principalmente nos grandes eixos que a gente tem. A influência dele é muito presente e perdurará por muitas décadas ainda”.

Ao final de década de 1990, a crise econômica refletida na construção civil e o desgaste do sistema preço de custo inviabilizaram a continuidade da DRM Construções, sendo o Edifício London, situado na Avenida Ana Costa, 121, a última obra entregue pela construtora.  Diante da nova situação passou a se dedicar ao ensino da arquitetura quando foi convidado em 1997, foi convidado a ministrar aulas de projeto arquitetônico no recém-criado curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Cecília de Santos, por onde lecionou por  mais de quinze anos.

Segunda-feira, 28/08/2017

São 10h. Márlio desce a escada e caminha em direção a sala de estar, localizada no primeiro piso da residência. Ambiente amplo, com coloração verde, no local há uma enorme variedade de  cerâmicas noborigama – compradas na cidade-, quadros de diversos artistas,, xilogravuras e na estante principal, localizada à esquerda do acesso principal da casa, livros de Freud, Jung, Gabriel Garcia Márquez, Kafka, Simone de Beauvoir, Günter Grass e outros livros relacionados à flora e fauna brasileiras enfeitam o local. Saímos pela porta lateral, passamos sobre uma ponte vermelha e caminhamos em direção  ao pomar, onde o arquiteto possui mais de cem árvores nativas e exóticas. Da casa principal até o local, o percurso é de aproximadamente 800 metros. O dia está ensolarado, o céu azul e sem nuvens e os pássaros sobrevoam sobre nós. Usando bermuda cinza, chapéu preto e camisa, Márlio cumprimenta os amigos e vizinhos por onde passa. Muitos cachorros soltos nas ruas latem incessantemente, mas não causam medo. Ao chegar no pomar, abre o portão vermelho e caminha cuidadosamente para não cair na descida íngrime que dá acesso ao pomar.  

Contempla a paisagem por vários minutos. A sombra de um pé de lichia, lembra de quando mudou-se de Santos para Cunha. “ Quando saí de Santos e vim para cá, decidi fazer uma tarefa diferente da minha vida profissional. Comecei a plantar neste terreno de 6 mil metros quadrados frutas e plantas exóticas. Trouxe frutas do norte, do México e de outras localidades. Aqui nesse laboratório botânico tenho mais de duzentas plantas entre elas pitayas, lichias, longanas, rambutans, atemoia entre outras”.

São 11 horas da manhã e o sol está a pino. Márlio caminha em direção as árvores e começa a tirar frutas e legumes para levar para casa. Ao todo, colhe dez pitayas, uma dúzia de limões amarelo – galego -, uma atemoia com cerca de oitocentas gramas, catorze beringelas e uma abóbora pesando mais de um quilo. “Essa abóbora não plantei. Provavelmente foram os passarinhos que trouxeram a semente. Já que está aqui, vamos levar para comer”.

São 12 horas, a filha caçula Flávia chega ao pomar e nos leva para a residência. Almoçamos e Márlio se despede para descansar.

Quinta-feira, 07 de setembro de 2017

Sexta-feira, 08 de setembro de 2017

Depois de dez dias, reencontro Márlio no Guarujá. Ele veio a Baixada Santista para a realização de exames de rotina. Hospedado na casa da filha caçula Flávia, é acompanhado pela esposa Maria das Graças e a filha mais velha Cristina Dantas, 59 anos, domiciliada em São Paulo. Regina, a terceira filha do casal liga de Bauru e pergunta sobre o estado de saúde do pai. Márlio assiste a partida de tênis pelo canal SporTV e lembra da época em praticava natação em Pernambuco. A natação, sua modalidade preferida desde os catorze anos ainda é praticada em Cunha. “Construí uma piscina em minha residência e ainda nado, mas em menor frequência. Antigamente eu não era um bom nadador, mas um ganhador nato. Durante seis ou sete anos  fui campeão invicto da natação que era promovido pela faculdade. Eu não me permitia perder e ficava na arquibancada fazendo charminho. O meu técnico era o professor Sérgio Ferro e foi durão comigo. Durante um ano eu tinha de quatro a cinco competições”.

São 18h30, o WhatsApp toca e Cristina informa aos pais que Guilherme, o neto mais novo, com seis anos estava sendo operado. A cirurgia era muito aguardada por todos. Desde o nascimento, o pequeno Gui, esperava pelo transplante de rins. Cristina, Flávia e Maria das Graças choram e,  todos comovidos se recolhem para aguardar notícias sobre o restabelecimento do pequeno Gui, como é chamado pelas tias.

Sábado, 09/09/2017

São 12h30 e Márlio está em frente ao edifício Nilo Branco para a gravação de uma reportagem. Acompanhado da esposa e das filhas Flávia e Cristina, usa uma camisa listrada nas cores cinza e branca, bermuda verde e tênis preto. Observa atentamente o prédio e algumas pessoas se aproximam do arquiteto. O turista paulistano parabeniza o arquiteto pelo projeto arquitetônico construído e diz ser a favor  do contraste do edifício. “É muito interessante ver o contraste do Nilo Branco. Achei maravilhoso. Por coincidência, encontrei o senhor Dantas e isso é um prazer para mim, ter a oportunidade de conhecer uma pessoa que faz parte da história da cidade”. Sensibilizado pelo reconhecimento, olha para o admirador e diz: “a reciproca é verdadeira”. Sorridente se despede, tira algumas fotos em frente ao edifício e segue em direção ao restaurante Estação Bistrô, localizado em frente ao Museu Pelé, no centro histórico de Santos, para almoçar.

São 14h, Márlio senta-se na ponta da mesa. A garçonete se aproxima e oferece os cardápios. Para o almoço pede meca, farofa com banana e bacon e risoto de pupunha.  Todos brindam na mesa e comemoram o sucesso da cirurgia de Guilherme. Sorridente, Márlio, relembra das irmãs – Marli e Marluce – e dos tempos em que capturava caranguejos em Pernambuco. “Eu ia com o Nivaldo – primeiro marido da irmã Marluce – pegar os caranguejos. Íamos até o mangue, colocava a mão no buraco e pegávamos os caranguejos guaiamu. Eram os mais bonitos e quando chegava em casa fazíamos. Era uma delícia!

Após o almoço, chama a garçonete e solicita a conta. Pega o dinheiro, paga os R$ 210,00 e agradece aos serviços prestados. Cansado, sai do restaurante. Observa alguns souvenires em frente ao Estação Bistrô e se despede depois de um dia agitado no centro histórico de Santos. “Estou cansado, agora preciso descansar. Caminhei muito hoje”, afirma o arquiteto.

18h de sábado.

Márlio permanece hospedado com a esposa e a filha Cristina na casa de Flávia, no Guarujá. Ouve a música “Meu velho”, de Altemar Dutra. Pergunta a esposa: “Graça, você ainda me ama?”. Maria das Graças acena com a cabeça que sim. A filha caçula sugere ao pai que volte a morar na Baixada Santista. O arquiteto, não responde.

Maria das Graças, feliz, mostra a foto do neto Guilherme, recém-operado e diz: “Graças a Deus, ele está ótimo”.Sentado em uma poltrona branca, a esposa coloca sobre as costas do marido um edredom de solteiro na cor beje. Se ajeita e começamos a entrevista. Diferente da esposa, católica  e com um terço pendurado no pescoço, Márlio diz ser ateu e afirma que não é possível acreditar na vida fantasiosa de Jesus Cristo. De uma formação comunista em que Lênin era mais presente – período em que viveu com o pai biológico,

Júlio Raposo até os dez anos -, declara que alguns aprendizados do cristianismo e do protestantismo podem ser utilizados na vida do ser humano. “Sou muito exigente com a parte religiosa. Tem muita fantasia nos pensamentos, no que diz a bíblia, nos costumes religiosos. É muito repetitivo. E é uma das coisas que o arquiteto tem que contestar muito. Continuo lendo e me interessando sobre a parte teórica da religião”.

A filha Cristina está na cozinha e prepara sopa de legumes para o pai comer. São 20h15, Márlio assiste ao Jornal da Band e logo em seguida ao Jornal Nacional. Antes do telejornal acabar, a esposa o chama para jantar.  

No domingo, a filha Cristina Dantas, preocupada com o estado de saúde do pai devido à idade avançada se despede e é levada por Flávia à rodoviária do Guarujá para retornar a São Paulo.

10/09/2017

A semana começa nublada no Guarujá e ouve-se menos o canto dos pássaros. Do segundo andar da sacada do apartamento de 89 metros quadrados é possível observar dois pés de chapéu-de-sol (terminalia catappa). As folhas estão secas e prestes a cair.

Regina, a filha que mora em Bauru chega ao Guarujá para ajudar Flávia e a mãe no restabelecimento da saúde do pai.

Márlio, o “Touro Indomável” encontra-se abatido. Os passos do arquiteto são mais curtos, as palavras não ecoam como antigamente, o homem forte e provedor, requer cuidados. No ambiente pode-se perceber que existe muito amor. Amor transformado em cuidado, carinho, oração.

21/09/2017

O dia está ensolarado e os pássaros voltam a cantar. Após dias intensos, Márlio, começa a mostrar os primeiros sinais de recuperação. No quarto, Maria das Graças estende as mãos ao marido para ajudá-lo a sentar e o pergunta se está tudo bem. Márlio, olha para a esposa e começa a chorar. Ao ser questionado pelo motivo do choro, diz: “eu sempre fui muito emotivo”. As filhas presentes no local ficam com os olhos lacrimejados e vêm os primeiros sinais de recuperação.

22/09/2019

Márlio levanta-se da cama e caminha em direção ao quarto da filha Flávia. Atônitas, as filhas vêm a recuperação do pai como milagre. Sentado no sofá da sala é estimulado a fazer um desenho. No papel de sulfite em branco começa a surgir um círculo. Ainda que em coloração escura, representa a roda da vida, a continuidade.

À noite, os netos - filhos de Regina – e o genro Ronaldo fazem conferência via Skype para conversar com Márlio. Ronaldo, marido de Regina, diz ao sogro que em breve fará um churrasco em Cunha. Sorridente, o arquiteto afirma que sim.

Flávia e Regina continuam a prestar todas as atenções necessárias ao pai. A avó, com uma alma generosa, promete ir a Aparecida do Norte e agradecer a santa de devoção pela recuperação do neto e do marido.

Aos 82 anos, o “touro indomável”, ressurge e mostra-se forte apesar da fragilidadade da saúde.

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